Semana Santa em Sevilha: uma experiência na Espanha profunda

Nazarenos de la Hermandad de la Carreterría
(Foto: Albert Besselse)

Sevilha, Córdoba e Granada devem entrar no roteiro de qualquer um que vá para a Espanha. Mas, se a viagem estiver programada para a época da Páscoa, não abra mão de ir para Sevilha na Semana Santa. Não importa que você não seja católico, não importa que você seja agnóstico, não importa que você seja ateu. Mais do que uma manifestação religiosa, a Semana Santa na Andaluzia é uma manifestação cultural. E, acredite, você não vai ver nada parecido em nenhum lugar do mundo.

Nós passamos dez dias por lá. Isso foi na época em que moramos em Barcelona e, como na Espanha a Semana Santa significa “semana em que o país fecha”, pegamos o trem na véspera do Sábado de Aleluia e rumamos para Sevilha. Ao chegar, como boa viajante obsessiva, fui na banca, comprei todos os jornais locais e esquadrinhei a programação para a semana seguinte. O primeiro ponto que me deixou de boca aberta foi o fato de que haveria quase 60 procissões até o domingo da Páscoa, e que muitas sairiam até mesmo de madrugada. O segundo foi a informação de que, “na Quinta e na Sexta-feira Santas, as mulheres sevilhanas usam luto fechado e mantilha preta.” Eu, que sou gaúcha, lembrei da Semana Farroupilha e do fato de que muito forasteiro acha que a gente passa o 20 de setembro usando vestido de prenda e com flor no cabelo. “Conversa pra turista dormir”, resmunguei.

Quem estiver achando que ir a uma cidade para ver procissão é coisa de turismo religioso está enganado. Até porque não é o meu caso. O fato é que Sevilla nessa época fica igual a Salvador no Carnaval: a vida normal entra em suspenso e o mundo gira em torno desse assunto. E tudo é espetacular, rico e pomposo. As famílias usam roupa de domingo durante os dez dias (estou falando de meninos de 3 anos usando terno e gravata). Há comida especial para cada ocasião. As ruas se transformam em uma grande passarela da vida. A cidade engalanada pulsa, vibrante.

“Costaleiros” ensaiando na rua (foto: Anual)

No meio dessa festa, sua única tarefa é a de escolher as procissões que deseja assistir. Não estou brincando, é isso mesmo. Há as multitudinárias, as milionárias, as espetaculares. Funciona assim: a irmandade (são 57, algumas do século XII) sai da sua sede, passa pela “Carrera Oficial” (o recorrido obrigatório para todos) carregando o andor do seu santo patrono ao passo de um som ritmado. Os “costaleiros”, responsáveis por suportar o peso do andor sobre a sétima vértebra, avançam sob as ordens do “capataz”. Pense que eles estão levando nas costas cerca de 4 toneladas de ouro e prata (subtraídos do Novo Mundo, a propósito). Os demais fiéis (podem chegar a 3 mil) usam camisolões e um capuz medievais. Ah, e são todos homens. Vou pular essa parte.

Este canal no Youtube mostra os melhores trechos das procissões do ano passado:

A procissão mais roots que vimos foi a da irmandade da Esperanza Macarena. É a mais populosa da cidade, com quase 3 mil participantes, e sai na madrugada na Sexta-feira Santa, a famosa “Madrugá”. Ficamos junto com uma multidão num largo, à espera da saída da procissão, para ver o andor que carrega a imagem do século XVII enfeitada com cinco rosas de esmeraldas doadas pelo toureiro devoto Joselito el Gallo e com uma coroa de ouro e diamantes. A imagem e o andor, que é enorme, são ricamente adornados em ouro, prata e pedras preciosas.

Andor e imagem de María Santíssima de la Esperanza Macarena (foto: Mflito)


Pra você ter idéia de como é um programa família, na nossa frente, um casal de jovens aguardava enquanto embalava um carrinho com um bebê de uns 2 meses. É multidão, mas não tem empurra-empurra nem briga de torcida.

A saída da procissão é impressionante. A música. O esforço dos costaleiros. A emoção da multidão. A riqueza aviltante dos adornos. A madrugada. É mágico.

Este vídeo no Youtube mostra essa procissão ao passar pela catedral (pode-se ver claramente a Giralda):


Entre uma procissão e outra, é claro, é obrigatório conhecer os pontos turísticos da cidade: a catedral e o Alcázar, a Torre de Oro, a Casa de Pilatos. Entre uma e outra, tome uma cerveja e coma tapas no Barrio Santa Cruz e não deixe, de jeito nenhum, de assistir a um espetáculo de flamenco. E, se passar a noite na rua, recupere-se com a comida típica da “madrugá” sevilhana: chocolate com churros. Levinho assim.

foto: Lobilla

Ah, e a história do luto e da mantilha é verdade. A mulherada passa dois dias vestindo preto, num conjunto de uma beleza plástica danada. Mas é o luto mais alegre que eu já vi.

Veja a programação da Semana Santa em Sevilla em 2013

Luciane Aquino

Militante da economia digital, jornalista, viajadora, curiosa, leitora, tricoteira.

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