O que meus filhos aprenderam viajando

Aprendendo a ver o mundo

Minha vó Marçal, munida de uma vasta sabedoria de vida, volta e meia largava a frase: “Viajou como cavalo e voltou como burro.” O ditado era um daqueles que os mais velhos usam para lacrar uma discussão, e ela usava para reprovar a experiência de quem havia desperdiçado olimpicamente uma bela oportunidade de conhecer algo novo e aprender com isso.

Eu já contei essa história para meus dois filhos uma meia dúzia de vezes, mas é mais para manter a  memória familiar do que por necessidade. Eles viajam como cavalos e voltam como sábias corujas. Lembrei muito disso quando fui convidada para participar da blogagem coletiva para contar o que os meus filhos aprenderam viajando.

Nós fomos meio chatos para começar a viajar de verdade, porque não fomos os tipos de pais que mantêm a rotina de antes do nascimento da criança. Nossas primeiras incursões longe de casa sempre foram em cidades bem civilizadas no Brasil ou em resorts (contei tudo sobre isso neste post da blogagem sobre as nossas melhores viagens em família). Coisas bem tranquilas, sem muita aventura.

Mas, quando a menor fez cinco anos e o maior recém tinha feito sete, resolvemos botar o pé no avião de verdade e fomos para Orlando. Foi tão bom que emendamos três viagens em menos de um ano, pra tirar o atraso, e não paramos mais. Quando dá, a gente foge.

Mesmo nas viagens mais tímidas do começo da infância, eles já aprendiam muito. O João começou a comer carne num resort na Praia do Forte (durante meses depois disso eu o convenci a comer bife porque jurava que a carne era da Bahia) e a Júlia começou a tomar água de canudinho aos sete meses sentada numa esteira na praia (ela nunca pegou mamadeira, e o canudinho foi bico pra quem já tinha passado a manhã comendo areia). Viagens, aliás, geram saltos de desenvolvimento em bebês. Alguns, por serem incontornáveis: reza a lenda lá de casa que eu larguei a chupeta porque joguei a minha pela janela de um hotel em Montevidéu e não me adaptei de jeito nenhum aos chupetes uruguaios.

Mas, quando a mudança de cultura e as distâncias começaram a ser mais radicais, os aprendizados se alargaram muito. E eles voltam sabendo mais história e geografia, claro, mas principalmente a serem pessoas melhores.

Essas são as coisas mais importantes que eu acho que eles aprenderam em viagens:

A ESPERAR

Na fila para esperar um autógrafo no Hollywood Studios

Nesse mundo do imediatismo, não somos os únicos pais a reclamar de que as crianças não esperam por nada. Parece que eles aprendem a falar “estou entediado” antes mesmo de aprender a dizer “estou com fome”.

Só que, por sorte, quem não espera não viaja. É preciso esperar pelo check-in, pelo embarque, pela imigração, pelo check-in no hotel, pelo metrô, pelo ingresso no museu, pela comida…

Esperando o Batobus em Paris

A COMER COISAS NOVAS

Comendo a Torre Eiffel no restaurante 58, na… Torre Eiffel!

Quando, enfim, decidimos começar a viajar de verdade, começamos também a forçar a diversificação da dieta. Tenho um objetivo pessoal de convencer os dois a provar pelo menos uma coisa nova a cada viagem (quero ir à Ásia, na verdade meu objetivo tem que ir muito além disso!).

O problema é que eu, que sou uma avestruz e como TUDO o que me oferecem, tenho pouca paciência com exigências alimentares.  Faço sempre o discurso de que comer é um prazer, e de que não se conhece uma cultura sem conhecer a comida (se fosse falar mais sinceramente, soltaria um discurso inflamado atacando a frescura, mas acho que seria contraproducente). Aos poucos, vamos avançando, e temos boas lembranças de viagem por causa disso. A “carne da Bahia” já foi substituida na memória do pequeno por um Kobe Beef provado no restaurante japonês Morimoto, em Nova York. Na vida dele, aliás, muitas das primeiras vezes rolaram fora de casa: a primeira carne, o primeiro cachorro-quente, a primeira batata frita…

Por incrível que pareça, uma das maiores conquistas foi fazê-los comer pão de verdade. Não aquele pão de supermercado, mas uma boa baguette cascuda coberta de manteiga. Bastou descer o pé na Europa que esse milagre aconteceu. Pão bom faz parte da cultura, não?

Provando sorvetes de sabores locais en San Pedro do Atacama

A ENTENDER E RESPEITAR AS DIFERENÇAS

Indo visitar a Estátua da Liberdade, presente da França aos Estados Unidos que celebra… a liberdade

Quando eles eram menores, logo ao chegar a um novo lugar começávamos a chamar atenção para coisas diferentes:
“De que cor são os táxis aqui?”
“Que língua eles falam?”
“Como as pessoas se cumprimentam? Dão beijinhos?”
É claro que também havia perguntas com segundas intenções, do tipo “Como as crianças se comportam em restaurantes?”. #quemnunca?
À medida que o tempo passa, no entanto, falamos sempre de outras diferenças: costumes, pobreza, democracia, racismo, o papel das mulheres. Temos muito orgulho do quanto eles são abertos e do quanto respeitam costumes e diferenças.

A ENFRENTAR A ADVERSIDADE

Enfrentando o frio próximo a zero nos geiseres del Tatio, no Atacama

Enquanto estamos fora, ninguém reclama muito de frio, de fome ou de ter que caminhar só mais um pouquinho. No pain, no gain.

HISTÓRIA, GEOGRAFIA, ARTE E IDIOMAS, CLARO!

Um carro do meu tamanho!

Esse item é quase inevitável, mas o legal é quando as crianças dão sentido aos fatos. A Júlia havia sido sensibilizada na pré-escola por uma professora notável a respeito do quadro Noite estrelada, do Van Gogh. Eles haviam reinterpretado o quadro em aula. No fim, quando ela viu as versões no Musée D’Orsay, em Paris, e no MoMA, em Nova York, ele teve outro sentido. Quando planejamos a viagem à França, ver o quadro foi a única exigência dela.

E qual não foi o nosso espanto quanto o João sentou ao lado de um menino da idade dele no restaurante do hotel em Edimburgo e começou a conversar em inglês sobre Minecraft. O menino morava no interior da Inglaterra, perto de Liverpool (o João contou que estávamos vindo de lá), e tinha um sotaque bem carregado. Quem na família desconfiava que o guri já conseguiria conversar fluentemente em inglês com um inglesinho do interior? Nobody!

Assim, cada um vive as viagens segundo a sua experiência e a sua personalidade.

Vó Marçal, acho que não aprovarias meu jeito de ser mãe em absolutamente tudo, mas nisso acho que cumpri minha missão: eles viajam como manada e voltam voando baixo.

Não deixe de ler todas as postagens da blogagem coletiva O que meu filho aprendeu viajando:

1 – Viagens que Sonhamos
2 – Felipe, o pequeno viajante
3 – Malas e malinhas
4 – As Passeadeiras
5 – Do RS para o Mundo
6 – Família Viagem
7 – Viagem Simplesmente
8 – TripBaby
9 – Ases a Bordo
10 – Malas e Panelas
11 – Vem Pro Parque
12 – No Mundo com a Gente
13 – Trilhas e Cantos
14 – Gosto e Pronto
15 – Valentina na estrada
16 – Retrip Viagens e Experiências
17 – Para a Disney e além
19 – Com Filhos por aí!
20 – Cuore Curioso
21- Andreza Dica e Indica Disney
22 – Viajo com Filhos
23 – Por aí com os Pires
25 – Cantinho de Ná
26 – Viajo com Filhos
27 – Carregando Malinhas
28 – De Primeira Viagem
29 – Roteiro Renatours
30 – Ferinhas Viajantes (Ana Paula Lima)
31 – Os Caminhantes
32 – Dicas da Rege
33 – Viajando em Família
34 – Pequenos pelo mundo
35 – Passeiorama
36 – O Rei do Hotel

Luciane Aquino

Militante da economia digital, jornalista, viajadora, curiosa, leitora, tricoteira.

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