Roteiro de quatro dias com crianças no Atacama

Curtindo o pôr do sol na Laguna Tebenquiche, no deserto do Atacama
Curtindo o pôr do sol na Laguna Tebinquinche

Quando eu conto que fui pro Atacama com meus filhos, todo mundo que nunca foi acha estranho. No imaginário popular, o turismo nesse deserto no norte do Chile é inóspito, com longas caminhadas e trilhas difíceis. Nada mais falso. Tanto as crianças – que na época tinham 9 e 11 anos – quanto meu marido – que não pode caminhar muito – curtiram os passeios, que podem ser adaptados perfeitamente à capacidade física de cada família.

Se você vai com as crianças, é claro que precisa tomar alguns cuidados. O Atacama é o deserto mais seco e mais alto do mundo (saiba mais sobre o clima na região). É importante mantê-las hidratadas por causa do clima seco e bem protegidas do sol. Ao entardecer, a temperatura cai drasticamente, variando em até 20 graus (é isso mesmo, cai de 25 graus para cinco), e por isso é preciso ter à mão roupas quentes que incluam um bom casaco, touca e às vezes até luvas. A altitude não costuma ser um problema (os adultos sentem mais os efeitos do que as crianças), mas, no caso de haver mal-estar, basta repousar um pouco que passa logo.

No mais, é só aproveitar a viagem, que inclui algumas das paisagens mais alucinantes que você já viu na vida. Confira a nossa sugestão de roteiro básico de passeios no Atacama, para fazer em quatro dias:

1. Valle de la Luna y Valle de la Muerte
Este roteiro é ótimo para o primeiro dia, principalmente se você chegar a San Pedro do Atacama pela manhã. É feito normalmente à tarde, e inclui a Cordilheira de Sal e os dois Valles, todos relativamente perto da cidade (tanto que alguns vão de bicicleta, mas não é uma hipótese para as crianças).

Esse é um passeio que você não conseguirá fazer com um carrinho: tem que levar os menores no colo ou em um sling.

Cânion da Cueva de Sal, no Atacama
Paredes do Cânion da Cueva de Sal

Nossa primeira parada foi no Cânion da Cueva de Sal, que foi aberto por um rio extinto há milhares de anos. A paisagem já dá o tom do que veremos nos dias seguintes: formações rochosas impressionantes e muitos sedimentos de todas as cores. Tudo é formado de sal, argila, gesso e areia.  Essa parte do passeio inclui uma caminhada por passagens estreitas, que são fáceis para as crianças mas que podem ser difíceis para adultos com mobilidade reduzida. Essa é a primeira e última parada com banheiro do passeio: aproveite.

Valle de la Luna. À esquerda, a Grande Duna

A seguir, fomos para o Valle de la Luna, onde se pode ver a imponente Grande Duna e ter a primeira visão realmente panorâmica da região. Neste momento, seus sapatos serão destruídos pelo sal e pelo pó que invadirá sua roupa até você pegar o avião de volta para casa. Mas vale a pena: a caminhada até a Duna é em areia fofa e um pouco cansativa, mas a vista é maravilhosa. Em alguns momentos, minha filha ficou cansada, mas o nosso guia (Luís, da Excursiones Kimal) era um querido e chegou a carregá-la.

O impressionante Anfiteatro, no Valle de la Luna
O impressionante Anfiteatro, no Valle de la Luna

Os dois pontos seguintes são visitados de carro: as Três Marias, uma formação salina que lembra figuras humanas e que não me emocionou muito e o Anfiteatro, que é uma das paisagens do Atacama que vai queimar a sua retina.

Uma de nossas fotos sobre a Pedra del Coyote, no Valle de la Luna, no Atacama
Uma de nossas fotos sobre a Pedra del Coyote, no Valle de la Luna

Dali, fomos para a Pedra del Coyote, também de van e sem caminhada. Esse é um dos pontos mais famosos para fotografias no Atacama, e tivemos a sorte de ter um guia que soube escolher o momento de chegar. Ficamos praticamente sozinhos ali, sem enfrentar a tradicional fila para fazer fotos na rocha que avança sobre a imensidão.

O dia terminou com o primeiro pôr do sol sobrenatural do Atacama (haveria outros), no Valle de la Muerte:

Vale da Lua, no Atacama, Chile
Nosso pôr do sol foi abençoado por uma incrível lua cheia

A experiência foi enriquecida por um piquenique maravilhoso, que incluía vinho tinto e branco para nós e dois tipos de suco para as crianças:

Luís, nosso guia, serviu um piquenique caprichado para comemorarmos o primeiro pôr do sol no Atacama

Dia 2 – Centrinho, Ojos del Salar e lagunas Cejar e Tebinquinche

Esse é um passeio feito também à tarde, e por isso nós reservamos a manhã para tomar café preguiçosamente (leia aqui a resenha do Hotel Kimal, onde ficamos) e explorar a cidade de San Pedro de Atacama. Fomos além da calle Caracoles, onde jantamos na noite anterior, e visitamos a igreja e a feirinha de artesanato local.

Igreja de San Pedro de Atacama
Igreja de San Pedro de Atacama
Feira de artesanato em San Pedro de Atacama
Feira de artesanato em San Pedro de Atacama, onde os produtos são mais baratos que na Calle Caracoles
Produtos feitos com a folha de coca, à venda na feira de San Pedro de Atacama
Produtos feitos com a folha de coca, à venda na feira de San Pedro de Atacama, ajudam a enfrentar a altitude

Aproveite para conferir o Solmáforo, que indica a incidência de raios ultravioleta no dia e recomenda o tempo máximo de exposição ao sol:

Não deixe de conferir o solmáforo de San Pedro de Atacama
Solmáforo em San Pedro de Atacama diz quanto sol você pode pegar no dia

Logo depois do almoço, é hora de fazer a primeira visita ao Salar do Atacama propriamente dito. A primeira parada é na Laguna Cejar, que é mais salgada que o Mar Morto. Antigamente, era possível banhar-se nela, mas essa atividade começou a deterioriar o ambiente e hoje só é permitido tomar banho numa lagoa menor ao lado.

Duchas para tirar o sal do corpo na Laguna Cejar
Duchas para tirar o sal do corpo na Laguna Cejar
Laguna Cejar, no Atacama
Tentando vencer o frio para tentar mergulhar na Laguna Piedra, ao lado da Laguna Cejar

No local, há banheiros e cabines para trocar de roupa, e chuveiros para tirar o sal do corpo. A água se mantém em uma temperatura entre 10 e 15 graus, e por isso mesmo é perfeita para crianças. Quem mais se atreveria a entrar num balde de gelo desses? Os meus não tiveram a coragem de flutuar, mas passaram quase meia hora com os tornozelos de molho. Luís, o nosso guia, mais uma vez foi parceirão ao entrar na Lagoa com as crianças, tirar fotos e tentar convencê-los a tentar mergulhar. Ficamos sentadinhos na beira.

Ojos del Salar

A seguir, fomos ver os Ojos del Salar, que são duas pequenas lagoas lado-a-lado em cuja margem se podem tirar fotos impressionantes, com reflexo perfeito da paisagem.

Foto de família à beira dos Ojos del Salar

O passeio termina na Lagoa Tebinquinche, onde há a única caminhada do dia, que é opcional. A trilha costeia parte da lagoa, que reflete as montanhas. Se você quiser, a van deixa você na entrada e espera todo mundo no final, já com um piquenique para que todos possam apreciar mais um pôr do sol no Atacama.

A Lagoa Tebinquinche reflete as montanhas
A Lagoa Tebinquinche reflete as montanhas e rende fotos perfeitas!
A trilha ladeia a Lagoa Tebinquinche. A pequena ficou cansada
As vans se posicionam no final da trilha para que todos possam apreciar o por do sol
Nosso piquenique do segundo dia

3. Geiseres del Tatio

O terceiro dia é de acordar cedo e subir a montanha para visitar os Geiseres del Tatio. Como nós optamos por contratar passeios semi-privativos, não tivemos que acordar às 4h, como ocorre com as excursões grandes em que o ônibus tem que percorrer todos os hotéis antes de partir.

Saímos às 6h, ainda no escuro, depois de um café da manhã especial preparado pelo hotel (todos estão preparados para servir alguma coisa aos hóspedes que vão ao Tatio). No caminho, o guia nos mostrou algumas estrelas.

Chegamos ao campo geológico já ao amanhecer, mas ainda com temperaturas negativas. A paisagem é muito bonita, com a água brotando do solo em jatos às vezes baixos, às vezes mais altos. Uma bruma úmida domina o local, e a atmosfera é mágica.

Esse foi o passeio de maior altitude que fizemos, a 4.200 metros. A única que sentiu um pouco foi a minha filha, que ficou um pouco enjoada depois de visitar os gêiseres. Como ela sempre enjoa em estradas sinuosas (e a subida tem curvas), não soubemos qual foi a causa. Mas ela melhorou logo.

Geiseres del Tatio
Geiseres del Tatio

Se você ou as crianças tiverem coragem, é possível tomar banho em uma piscina natural. Há vestiários no local (não esqueça de levar toalhas e roupa de banho):

Banhistas na piscina natural dos Gêiseres del Tatio
Banhistas na piscina natural dos Gêiseres del Tatio

Como já estávamos nos habituando, essa parte do passeio terminou com um segundo café da manhã:

Café da manhã Geiseres del Tatio Atacama

No retorno, faz-se uma parada no minúsculo pueblo de Machuca, onde alguns se arriscam a comer churrasquinho de lhama. O mais interessante é ver os animais vivos, e apreciar o artesanato e as casas construídas com adobe e palha.

Pueblo de Machuca, no Atacama
Pueblo de Machuca

Na estrada, o guia mostra diversos animais da região. Vimos vizcachas (um coelho de rabo comprido), vicunhas, suris e diversos pássaros. Algo que não teríamos conseguido fazer se estivéssemos fazendo o roteiro por conta própria.

O passeio termina a tempo do almoço em San Pedro do Atacama, o que permite programar outro no mesmo dia. Nós preferimos aproveitar a piscina do hotel enquanto estava quente. Esse é um dia em que pode ser conveniente fazer uma das excursões astronômicas. Para nós, não foi possível porque era época de lua cheia, o que impossibilidade a observação das estrelas. Lembre-se: o Atacama tem uma das atmosferas mais límpidas da Terra, e é por isso que um dos observatórios mais importantes do mundo está lá. Se puder, programe-se e faça uma das excursões, porque as crianças certamente vão adorar.

Dia 4 – Reserva Nacional de Flamencos

Flamingo na Lagoa Chaxa, no Atacama

Esse dia é dedicado aos flamingos! O Salar do Atacama abriga pelo menos três espécies diferentes dessas aves. Dependendo da onda migratória, você vai ver mais de uma ou de outra, mas sempre haverá flamingos na reserva. Na Lagoa Chaxa, onde fomos, a reserva tem informações sobre as aves, e é possível ver em um aquário os minúsculos crustáceos cor de rosa dos quais os flamingos se alimentam e que dão a eles a típica cor rosa.

 

Salar na Reserva Nacional Los Flamencos

Pronto, aí está nosso roteiro básico pelo Atacama em quatro dias.

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Hotéis em Santiago do Chile

Luciane Aquino

Militante da economia digital, jornalista, viajadora, curiosa, leitora, tricoteira.

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